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Artes Visuais - O espelho do original, da artista Deborah de Robertis.

Em 02/06/2014 reproduzi neste blog matéria no original, em francês, sobre performance da artista Visual no Museu d' Orsay, em Paris. Agora, enfim, publico uma tradução livre que fiz sobre a referida matéria.

" No último dia 29 de maio , a artista visual Deborah de Robertis, que trabalha incessantemente sobre a questão masculino/feminino, artista/galeria, prostituta/cliente, escolheu expor seu sexo no Musée d' Orsay, logo abaixo da pintura A Origem do Mundo, de Courbet.

Explicações. Sala 20 do Musee d' Orsay. Vemos várias obras, mas uma está no centro da sala - L'Origine du Monde, de Courbet.  No dia 29 de maio de 2014 às 14:30, o quadro pintado por Courbet em 1866, encontrou um espelho original e fragmentado. A encarnação dessa origem é a artista Deborah de Robertis. Os fragmentos do espelho são os visitantes, esses múltiplos olhares que assistem a uma cena única. Vestida de dourado, a artista explode a estrutura/moldura não menos dourada do quadro.  Diante de uma multidão de visitantes, ela caminha dignamente até a pintura, sob o fundo musical  da Ave Maria de Schubert  interpretada por Maria Callas e remixada com um poema, uma revelação:

Eu sou a origem


Eu sou todas as mulheres
Você não me viu
Eu quero que você me reconheça
" Virgem como a água criadora do esperma. "

Então, sob o olhar atravessado uma guardiã, ela faz uma pose sob a pintura, pernas afastadas, encarnando o olhar ausente do sexo pintado por Courbet. Do olhar, de um azul profundo, caem lágrimas douradas, e nesse dia da ascenção, o visitante esteve em frente a uma representação icônica da Virgem?  Ou talvez trata-se de Maria e Maria Madalena? Ambas encarnadas em uma única mulher? Santa ou puta? Ou somente todas as mulheres?
"Quem afirma que os anjos não podem chorar?" Paul Claudel em uma fração de segundo , a vertigem está lá, o essencial: a vida. A pose evoca o nascimento do "filho pródigo ", a origem, a própria essência do que nos ultrapassa: a nossa vinda ao mundo .
O instante é curto. A guardiã, vestida de preto, como um estranho anjo da morte, se opõe à visão. De pé, seu olhar está no nível do sexo pintado por Courbet e suas pernas procuram esconder o sexo da artista.
Absurdo dessa "mise en abime" da vida e  da vida e morte, da mulher, que escolhe ser objeto ou ser sujeito. Quem, entre a guardiã e a artista, mantém a pose? Estranho duelo , duas forças de mulheres se afrontam, eles se oferecem ao olhar cada uma apontando sua arma, uma, a vulnerabilidade , a outra, o poder. O anjo negro contra o anjo branco. Face a face, sob o olhar do sexo pintado por Gustave Courbet, presente na sala entre os visitantes.
À ordem autoritária dirigida à artista pela guardiã para cessar de expor seu sexo, e aos visitantes, para desviar o olhar e deixar a sala, ninguém se move, todo mundo permanece imóvel, cativado. A guarda passa da multidão à artista, revelando assim o sexo de Deborah de Robertis, tornando-se cúmplice do que ela considera ilícito. A cena é vista e revista. Outra guarda chega, os visitantes do museu aplaudem, a gente escuta "bravo", talvez resposta sonora "Alegria" no sentido bíblico do termo?
Foi preciso esperar o serviço de ordem para que a sala fosse esvaziada apesar de um dos fragmentos do espelho, os visitantes, se tornando atores. A cena fica para trás, enquanto os visitantes são postos para fora, o outro fragmento essencial do espelho, a artista, restando intocada, se torna obra. A censura das guardas, querendo interditar o sexo, produz o efeito inverso e sacraliza a pose da artista.
Imóvel, a artista sentada abaixo do quadro do mestre, é enquadrada como "fora da lei", como se ela fosse uma bomba.
Trata-se de uma explosão, ao mesmo tempo do quadro, da pintura e do sexo pintado por Gustave Courbet.

Qual é o assunto: a mulher ou o quadro?
Quem é o mestre , quem é o aluno ?
Quem é o original, quem é a cópia ?
Quem é o anjo branco, quem é o anjo negro ?

Como afirma Deborah de Robertis: "Há um 'buraco' na história da arte, o ponto de vista ausente do objeto do olhar. Em sua pintura realista, o pintor mostra as coxas abertas, mas o sexo permanece fechado. Ele não revela o buraco, ou seja, o olho. Eu não mostro meu sexo, mas eu revelo aquilo que a gente não vê no quadro, o olho do sexo, o buraco negro, esse olho enterrado, esse nada que, além da carne, responde ao infinito insustentável, a origem da origem. Diante da super-exposição do sexo no nosso mundo contemporâneo, não há mais nada a revelar, salvo o anúncio de um mundo novo onde os grandes mestres se deixam olhar pelas mulheres. Eu proponho o espelho invertido do quadro de Courbet, que nos lembra que a história se conta nos dois." Ela nos convida assim a posar um novo espelho diante do quadro de Courbet: ele é realista? Um trompe l'oeil?

Dando outra olhada na modelo de Courbet, ela encarna todas as mulheres, uma vez que ela  nos convidou justamente no seu encantamento  e sobrepõe apesar dela, a questão da "Lei". Apesar dela, tanto é difícil de associar a ideia de qualquer transgressão a seu ato tão puro, justo , virginal, evidente. Portanto, a sequência da história é bem de um confronto com a "Lei". Mas, de que lei se trata? Aquela fixada por nossa democracia ou aquela transcendental, de nossa presença no mundo?

O resto da história se alonga. A polícia chega ao museu e leva Deborah de Robertis ao comissariado de polícia. Certamente não havia algemas, mas a polícia vai responder à "queixa". A jurídica, da segurança do museu e de seu presidente que "vítima" de uma "infração" deve informar a autoridade competente. Esta pode ser espiritual da artista que, vítima do "jurídico", evoca o Salmo de David: 

Essa artista talvez espiritual, que sofria as penas da "lei" refere-se ao Salmo de David: "Senhor, escute a justiça! Ouça a minha reclamação, acolha minha prece: Meus lábios não mentem."

À acusação de "atentado ao pudor", Deborah Robertis defende seu ponto de vista. Este "ponto de vista" é, talvez, precisamente aquele que a gente remarca a todas essas mulheres: objetos, modelos, empregadas (incluindo a guardiã do Musée d'Orsay), modelos de publicidade, estrelas do Festival de Cannes, atrizes de filmes pornográficos, revistas, papel machê , digerida, cuspida, ingerida na completa indiferença de uma sociedade que se tornou cega, que ainda assim decide  de a "garde-à-vue".
"A vue". A posição do artista torna-se então visível explodindo não somente o quadro com a pintura, mas também a pequena sala 20 do Museu d'Orsay, por fazer obra e torna-la pública, política, histórica, emblemática. 
Uma questão central,  aquela do olhar, nosso olhar, vosso olhar. No confronto entre os oficiais de polícia e a artista, serão levantadas muitas questões que nos afetam a todos. As questões jurídicas com a oposição de nossas liberdades fundamentais inscritas na Declaração Universal dos Direitos Humanos: Artigo 19: Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão.  Artigo 29.2:2 No exercício de seus direitos e no gozo das liberdades, toda pessoa estará sujeita apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar geral numa sociedade democrática. 
Problemas sociais relacionados com a definição de "moralidade". 
Podemos observar a pintura de Courbet em família sem ser avisado, na entrada, da natureza sexual do quadro? Devemos olhar para os olhos de Deborah de Robertis e sua postura mimética do quadro chamando a polícia? 

Quando começa e termina o exibicionismo sexual? Na Internet, no filme pornô no sábado à noite, em frente a sua porta da frente uma noite à meia-noite diante de um louco maníaco ou no trabalho de uma artista sob o olhar de Courbet?

Questões artísticas. Quais são os critérios para julgar a noção de obra de arte? Onde começa a censura? A gente pensa evidentemente na polêmica sobre o quadro pintado por Courbet em 1866, no processo de Brancusi contra os Estados Unidos, em 1927, e ao que poderá vir a acontecer a Deborah de Robertis em 2014. 
O procurador da República lembrou que um século havia se passado e, finalmente, "arquivado com a notificação da lei."
"Lembre-se da Lei" da República, é claro, mas também a lei suprema, que nos leva para o mistério da "Origem do Mundo", a nossa fonte, da vida, da morte, lembrando-nos que viemos do pó e ao pó tornaremos. 
Vertigem das vertigens. Anjo branco, anjo negro. Devemos respeitar as leis do universo ou as estabelecidas pelos seres humanos? 
Na ação de fazer a pose, ela sai da imagem, encarna a vida e a expõe ao mundo. 
Que pode o Musée d'Orsay esconder atacando a artista por atentado ao pudor: o sexo do artista ou a exposição de sua própria censura? A resposta perturbadora de Deborah de Robertis expõe: 
"À todos, vocês viram o espelho da Origem, eu os vi."

(Tradução livre do artigo "Le miroir de l'origine da artista Deborah de Robertis", publicado na página Secondesexe, em 29/5/2014).

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