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O Carnaval ou o Mundo como Teatro e Prazer

Homens travestidos de mulher no desfile das Virgens do Bairro Novo, Olinda 2014.
Foto: Lais Castro
Todas as sociedades alternam suas vidas entre rotinas e ritos, trabalho e festa, corpo e alma, períodos ordinários - onde a vida transcorre sem problemas - e as festas, os rituais, as comemorações - ocasiões extraordinárias, onde tudo pode ser visto por um novo ângulo.
A viagem da rotina para o extraordinário depende de uma série de fatores e pode variar de sociedade para sociedade. No Brasil, como em outras sociedades, o rotineiro é o trabalho ou tudo aquilo que remete a castigos e obrigações. O "extra-ordinário" é tudo que é fora do comum. Cada um desses lados permite "esquecer o outro", como duas faces de uma mesma moeda. Tanto a festa quanto a rotina são modos que a sociedade tem de exprimir-se, de atualizar-se concretamente. 
Todos os sistemas constroem suas festas de muitos modos. No caso do Brasil, a maior e mais importante, mais livre e criativa, irreverente e popular é, sem dúvida, o carnaval.
Como toda festa, o carnaval cria uma situação em que certas coisas são possíveis e outras devem ser evitadas. 
O carnaval é definido como "liberdade" e como possibilidade de viver uma ausência fantasiosa e utópica de miséria, trabalho, obrigações, pecados e deveres. Trata-se de um momento onde se pode deixar de viver a vida como fardo ou castigo; no fundo, é a oportunidade de fazer tudo ao contrário.
Tal como o desastre distribui o malefício ou a infelicidade para a sociedade, sem escolher entre ricos e pobres, o carnaval faz o mesmo, só que ao contrário. O Rei Momo, Dionísio, o Rei da Inversão, da Anti-estrutura e do Desregramento, sugere um universo social onde a regra é praticar sistematicamente todos os excessos. O carnaval é basicamente uma inversão do mundo. Só que é uma reviravolta positiva, esperada e vista como desejada e necessária em nosso mundo social. Permite a troca e a substituição dos uniformes pelas fantasias. Estas permitem a invenção e a troca de posições.
Carnaval, pois, é inversão porque é competição numa sociedade marcada pela hierarquia. É movimento numa sociedade que tem horror à mobilidade. É exibição, é feminino... Por tudo isso, o carnaval é a possibilidade utópica de mudar de lugar, de trocar de posição na estrutura social. De realmente inverter o mundo em direção à alegria, à abundância, à liberdade e, sobretudo, à igualdade de todos perante a sociedade... Pena que tudo isso só sirva para revelar o seu justo e exato oposto.

Fonte: Livro O que faz o brasil  Brasil? do sociólogo Roberto da Matta. Fiz um resumo do capítulo 5, de título igual ao título desta publicação. 

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substantivo masculino 1. Númeronecessáriodemembrosparaqueuma.assembleiapossafuncionar. 2.����������…