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Sobre Tradução...

Alguns elementos sobre tradução... para eu ter em mente, pois tem a ver com o trabalho que estou fazendo atualmente.

Tipos de tradução, de acordo com Roman Jakobson:

a) Tradução intralingual ou reformulação (uma interpretação dos signos verbais por meio de outros signos na mesma língua).

b) Tradução interlingual ou tradução propriamente dita (uma interpretação dos signos verbais por meio de alguma outra língua).

c) Tradução Intersemiótica ou transmutação (uma interpretação dos signos verbais por meio de sistemas de signos não verbais).

O tipo de tradução b descreve o processo de transferência da língua fonte (LF) para a língua meta (LM).

A equivalência completa (no sentido da sinonímia ou similaridade) não pode ocorrer em nenhuma de suas categorias, declara Jakobson - toda poesia é, portanto, tecnicamente intraduzível. Apenas a transposição criativa é possível: seja a transposição intralingual - de uma forma poética para outra, ou a transposição interlingual - de uma língua para outra, ou a transposição intersemiótica - de um sistema de signos para outro.

Exemplos:
A palavra em inglês pastry (massa doce com recheio), se traduzida para o italiano sem levar em conta a sua significação, não será capaz de desempenhar a sua função de significado em uma frase, ainda que exista um equivalente dicionarizado; pois pasta (massa) tem um campo de associação completamente diferente. Neste caso, o tradutor tem de recorrer à combinação de unidades, a fim de encontrar um equivalente aproximado.

O tradutor, portanto, utiliza critérios que transcendem o puramente linguístico, e um processo de decodificação e recodificação toma o seu lugar.
Algumas complexidades envolvidas na tradução interlingual se considerarmos a questão de traduzir-se yes e hello para o francês, alemão e italiano. Esta tarefa pareceria simples à primeira vista, já que todas são línguas indo-europeias, estritamente relacionadas lexical e sintaticamente, e expressões de saudação e consentimento são comuns a todas as três. Para yes os dicionário padrão dão a seguinte tradução:

Francês: oui, si
Alemão: ja
Italiano: si
A existência de dois termos em francês envolve um uso que não existe em outras línguas. Apesar de oui ser o termo geralmente utilizado, si é usado especificamente em casos onde há contradição, controvérsia, discordância. O tradutor em inglês, portanto, deve estar atento a esta regra ao traduzir a palavra para o inglês, que permanece a mesma em todos os contextos.
Ao considerar-se o uso da afirmativa em um diálogo, uma nova questão se apresenta. Yes não pode ser traduzido por palavras únicas como oui ou si, pois o francês, o alemão e o italiano frequentemente dobram ou utilizam afirmativas em ‘sequência’ de um modo que é fora dos procedimentos do inglês padrão. (ex. si, si, si; ja, ja , ja.)
Com a tradução da palavra hello, a forma para uma saudação amigável quando duas pessoas se encontram, os problemas são multiplicados. No dicionário:
Francês: ça va?; hallo
Alemão: wie geht’s?; hallo
Italiano: olà; pronto; ciao

A lingua inglesa não distingue entre a palavra usada para cumprimentar alguém pessoalmente daquela usada quando se atende ao telefone. O francês, o alemão e o italiano fazem distinção. O italiano pronto só pode ser usado como uma saudação ao telefone, assim como o hallo alemão. Além disso, o francês e o alemão usam como forma de saudação perguntas retóricas curtas, ao passo que as mesmas perguntas em inglês How are you? (Como você está?) ou How do you do? (Como tem passado?) são usadas somente em situações formais. A expressão em italiano, ciao, é de longe a forma mais comum de cumprimento utilizada em todos os segmentos da sociedade italiana, ela é usada igual contato entre indivíduos, estejam estes chegando ou partindo, e não a um contexto expecífico de chegada ou encontro inicial. Assim, o tradutor que vai traduzir hello para o francês deve primeiro extrair o núcleo de significado do termo e usar o termo que mais se aproxime do contexto.

Problemas de equivalência
A tradução envolve muito mais do que a simples troca de itens lexicais e gramaticais entre as línguas e, na tradução de expressões idiomáticas e metáforas, o processo pode incluir a eliminação de elementos linguísticos essenciais do texto em LF, de modo a atingir o objetivo de “identidade expressiva” (Popovic) entre os textos em LF e LM.

A intraduzibilidade
Catford diferencia dois tipos de intraduzibilidade, que denomina linguística e cultural. Em nível linguístico, a intraduzibilidade ocorre quando não há substituto lexical ou sintático na LM para um item na LF. Por exemplo, a sentença alemã Um wieviel Uhr darf man Sie morgen wecken? é linguisticamente intraduzível porque envolve estrutura que não existe em inglês. Ainda assim, pode ser adequadamente traduzida para o inglês, uma vez aplicadas as regras de estrutura desta língua. Um tradutor não hesitaria em traduzi-las como What time do you like to be woken tomorrow? (A que horas você gostaria de ser acordado amanhã?).
A intraduzibilidade linguística é devida à diferença entre a LF e a LM, enquanto a intraduzibilidade cultural deve-se à ausência na cultura da LM de um aspecto situacional relevante no texto em LF.

Um diagrama de relação comunicativa no processo de tradução mostra que o tradutor é tanto receptor quanto emissário, o fim e o início de duas cadeias de comunicação diversas porém ligadas:
Autor - Texto - Receptor = Tradutor - Texto - Receptor

Cada texto é único e, ao mesmo tempo, é a tradução de outro texto. Não há texto totalmente original, porque a própria língua, em sua essência, já é uma tradução: em primeiro lugar, do mundo não verbal e, em segundo, pelo fato de todosigno e toda expressão serem traduções de outro signo e outra expressão. Entretanto, pode-se inverter esse argumento sem que perca a validade: todos os textos são originais porque toda tradução é distinta. Toda tradução é, até certo ponto, uma invenção e enquanto tal, constitui um texto único

Fonte: BASSNET, Susan, Estudos de Tradução. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2005

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